Textos


Sons do silêncio

 

 

 

Em meio aos preparativos do fim do ano, surgiu a vontade de ir até o Ceará. Na verdade, o destino seria o Sítio dos Fernandes, localizado em Guia, distrito de Boa Viagem, cumprindo assim uma promessa feita ao amigo e sogro da minha filha – o Zezinho –, bem antes da pandemia, de visitar seus parentes a quem não via há mais de trinta anos.

No decorrer dos dias, fomos amadurecendo a ideia, deixando mais ou menos certo viajarmos logo após o Natal.

Assim, arrumamos a bagagem e, no dia vinte e seis, partimos. Precavidos em relação à estrada desconhecida, nos abastecemos com água, biscoitos e muitas frutas; mas, em Quixadá, distante pouco mais que duas horas do nosso destino, fizemos uma refeição mais substancial.

Ansiosos por chegar, parecia não terem fim as estradas; inclusive, as do final do trajeto, eram carroçáveis.

Chegamos, enfim. Os parentes do nosso amigo nos recepcionaram amorosamente; não obstante, observávamos certa preocupação no ar.

Na varanda da casa, os assuntos ganharam força e a atualização após mais de trinta anos de ausência trouxe à tona muitos risos e novidades. Sem contar com o movimento dos visitantes que chegavam a todo instante para rever o parente. O famoso “Zé Lema”, que posteriormente descobrimos ser “Lemos” – um dos sobrenomes dos seus ancestrais.

Quando tudo foi se acalmando e a noite foi chegando, o som do silêncio despertou a preocupação da dormida, que ficou aparente. Éramos seis, e soubemos, de última hora, que parentes vindos do Rio de Janeiro também estavam ali hospedados. A anfitriã cuidou logo do jantar e, enquanto saboreávamos deliciosas iguarias do sertão, ela foi logo dizendo que daria um jeito de nos acomodar. Pensamos até em procurar pousada na cidade mais próxima, distante setenta quilômetros dali; mas nos convenceram a ficar e, no fim, tudo deu certo. Nos acomodamos, os seis, num quarto. Nem todos conseguimos dormir, pois a nova adaptação do espaço e a sinfonia dos roncos de alguns não permitiram o repouso necessário após seis longas horas de viagem.

Bem antes do sol aparecer, eu já estava a postos. O dia começa cedo no campo, graças a Deus! Uma brisa fresquinha chegava até a varanda onde eu me encontrava. Um silêncio gostoso, só quebrado pelos sons dos pássaros que, aos poucos, despertavam para mais um dia; ou um mugido de uma ou outra vaca, convocando o bezerrinho para mamar. Hora da ordenha. Que delícia! Nada melhor que isso para repor as energias após uma noite em claro.

Quando o sol pintou o horizonte, lá estava eu para retratá-lo. De repente, como num filme, os personagens foram ganhando vida. Animais e homens, transitando num mesmo espaço. Hora do alimento. Uma festa!

Não demorou muito e o cheirinho de café coado nos convidou à cozinha. Depois de um desjejum reforçado, resolvemos explorar os vilarejos vizinhos. Rever a casa dos pais, onde o nosso amigo morou na infância, os amigos e parentes próximos e o cemitério onde descansam os seus familiares.

Depois fomos até Boa Viagem – município do Ceará –, cidade encravada no sertão cearense, com uma população aproximada de 52.000 habitantes. O calor abrasador desestimulou maiores explorações; resolvemos, por fim, almoçar e voltar para o sítio. Guiados pelo GPS, optamos por pegar um novo caminho, diminuindo em alguns minutos nosso retorno – coisa dos mais jovens. Percebemos, logo de início, que a estrada não era das melhores; mas, acreditando no app, continuamos. Passado um tempo, o chão de terra batida parecia mais uma montanha russa. Não víamos um pé de pessoa nem de bicho, quando, num dado trecho, a estrada ficou tão íngreme que o carro começou a patinar e não concluiu a subida. Desistimos em tempo certo. Até para fazer a manobra voltando foi difícil! Retomamos, enfim, à velha estrada e chegamos ao sítio. Novas visitas aconteceram, se estendendo até bem tarde. Muitas fotos registrando os momentos que ficarão na história. Essa noite foi mais tranquila. Todos dormimos o sono dos justos! Pela manhã, logo após o café, partimos, já sentindo saudade, prometendo voltar e reforçando os convites para que venham também conhecer as pessoas e as belezas do nosso Estado.

Não sei se pela pressa de voltar, mas parece até que o caminho encurtou. Estar de volta ao lar, ao meu quarto, e dormir ao som do silêncio, foi muito bom. Permitindo-me o trocadilho: apesar de todos os pesares, a viagem para Boa Viagem foi uma boa viagem.

Vanda Jacinto
Enviado por Vanda Jacinto em 30/01/2025


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr