Textos


Lembranças

 

 

Quando extenuada da rotina, deixo-me levar em pensamentos e ressuscito passagens agradáveis da minha infância. E, num piscar de olhos, vejo-me caminhando pelas ruas onde brinquei. Aos poucos, mil recordações vão surgindo. E o desejo de ali estar é tão forte que resolvi me valer dos Apps que aí estão ao nosso dispor. Acreditem, magicamente o “Google Maps” me presenteou, in loco, com cada palmo daquele santuário. Não é incrível!?

As novas tecnologias têm permitido avanços inimagináveis!

Embora com algumas modificações reais, de repente me vi ali, correndo e tirando da vida tudo o que ela me oferece; sim, o verbo no presente alerta que ainda aproveito cada instante dela; inclusive este.

Rua Madrid, esquina com a Rua Guaraipó, número 16, Parque Sevilha. Lógico que não foram só dias de alegria. Mas, dali, guardo na lembrança os melhores momentos da minha meninice.

As ruas não eram sequer pavimentadas, nem havia calçadas ladeando os muros dos quintais. Aliás, a minha casa – alugada – era cercada com ripas; porém, toda florida com roseiras trepadeiras. Nos galhos antigos e retorcidos, costumava brincar de casinha, com as minhas bonequinhas de pano ou feitas de espigas de milho – quando época. O gingado provocado no andar afetado – por mim provocado – balançava a cabeleira delas. Estas últimas, de milho, eu adorava, pois os cabelos longos e lisos das “espigas-bonecas” eram a minha paixão! Sempre apreciei cabelos lisos e compridos. Não parece, né? Trago os meus sempre curtos.

Como já citei num outro momento, era no quintal dessa casa que fazia a minha casinha debaixo do pé de limão.

Carros de passeio quase não se viam na nossa rua, só a “maquininha” – motoniveladora, era assim que a denominávamos. Após uma forte chuva ou quando a rua já estava toda esburacada, lá despontava a nossa festa. Sim era uma festa acompanhar o trabalho do tratorista. Ficávamos caminhando nos rastros lisinhos que a máquina ia deixando. Que perigo! Mas ninguém nos alertava dele e, assim, a brincadeira continuava até não mais querer.

Nessas mesmas ruas, em todas as épocas do ano, todas as brincadeiras tinham vez. Nas festas juninas, juntavam-se os vizinhos e montava-se uma gigante fogueira. Na sua base, as batatas-doces ficavam guardadinhas para o fim da noite, quando só restassem as brasas, e o cansaço nos fazia aquietar. Mas, durante a festa, de um tudo havia: milho assado, pipoca, quentão com pinga – só para os adultos, o nosso só tinha especiarias e gengibre. Mas pense como era ardido! Bolo de todos os tipos, só não de macaxeira – mandioca, como nós a chamamos por lá –, pois não era habitual. As bombinhas, biriba e chuviscos, ou estrelinhas, eram os nossos preferidos. Nesse tempo, soltavam-se balões, os perigos não eram tantos como hoje!

Outras tantas brincadeiras eram permitidas. Durante os períodos chuvosos não tomávamos banho de chuva – devido ao perigo dos raios, porém, depois da sua passagem, era na enxurrada a nossa bagunça. Quando se formava um temporal, a ordem era ficar dentro de casa, quietinhos, enquanto minha mãe cobria todos os espelhos aparentes e queimava um pedacinho do ramo bento. Sabe, o ramo de Domingo de Ramos? Então, lá em casa, ficavam atrás da porta de entrada, e eram utilizados nessas ocasiões. Os trovões e relâmpagos eram assustadores, pedíamos proteção à Santa Bárbara. Depois dos temporais, a água da chuva descia numa correnteza danada, daí os barquinhos de papel, eram os brinquedos da vez... Quanta saudade!

E é assim que, em meio aos devaneios, a vida vai seguindo mais branda.

Olho as crianças de hoje com seus brinquedos eletrônicos, sempre em frente às telas, presas na clausura de seus lares, “andando apenas sobre as quatro rodas de um carro” e penso: isto é infância? Sei que os tempos são outros, contudo me pergunto: quem teria as melhores memórias: eles ou eu?

Até o próximo encontro!

Vanda Jacinto
Enviado por Vanda Jacinto em 30/01/2025


Comentários


Imagem de cabeçalho: raneko/flickr