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QUE PRAÇAS CARREGO EM MIM?

 

 

Esse foi um tema desafiador na nossa Confraria do Café & Poesia. De pronto, fiquei perdida.

Não sei, respondi.

Penso que serão necessárias incansáveis incursões, nos arquivos da memória, até achar o que ficou retido por lá.

Pensando bem, nunca tive o hábito de brincar em praças, talvez por não haver nenhuma perto das casas onde morei quando pequena. Brincava mesmo dentro de casa, no quintal, ou no meio da rua nos finais de tarde.

Cheguei até a passear em algumas delas no centro de São Paulo, mas só no intuito de apreciar suas belezas naturais: os jardins, suas fontes, coretos e bustos de personalidades históricas. Sabe aquela coisa bem “turística”? Ah, mas com direito a algodão-doce ou pipoca.

Já na pré-adolescência, as praças ganharam novos significados. Lembro-me de uma; aliás, na verdade, nem era praça, mas um espaço aberto na frente da Paróquia da Sagrada Face, no Jardim Aricanduva, São Paulo – hoje uma moderna estrutura.

Àquela época, uma igreja nova, sem recursos para tocar em frente sua construção, se valia, além da festa anual, também de alternativas para arrecadar fundos. Lembro-me de que, aos sábados, depois da missa, tínhamos banquinhas com artesanatos, comidas, pipocas etc. E, aos domingos, matinês dançantes. Toda feita com palha, inclusive as laterais, a barraca onde se dançava era um tanto precária. Curiosa dos assuntos proibidos, afastava as palhas, com o intuito de olhar os casais dançando e apostando quem ia ficar com quem. Só em apreciar, para mim, já era uma festa! Na matinê, as músicas mais tocadas eram: Perfume de Gardênia; Sonhar contigo; Angústia, de Bienvenido Granda; Bésame Mucho, El Reloj e La Barca, com Lucho Gatica. Que delícia! Adoro essas músicas até hoje!

Já na minha adolescência, frequentava, vez por outra, também no entorno da Igreja São Mateus Apóstolo, uma pracinha sem grandes atrativos. Para ser sincera mais no período da festa do Padroeiro, quando ficava tomada pelas barracas beneficentes com maçã do amor, pipocas, algodão doce, lanches, tiro ao alvo, argolas e tantas outras delícias e brincadeiras.

Essa mesma praça, tempos depois, serviu de pretexto para passeios inventados, quando o objetivo era frequentar a matinê dançante que acontecia no Salão Paroquial, no domingo à tarde. E foi nela, que meio sem graça, ganhei a minha primeira “bitoca” – como denominávamos o beijo apressado – hoje, selinho.

Outra praça, cuja beleza encantava-me, era a Praça da República – no coração de São Paulo. Totalmente arborizada! Passava horas a fio, sozinha, olhando, além das suas belezas naturais, o artesanato de couro mais bem acabado que já conheci! Só usava bolsas de lá. Bolsa tiracolo.

Incrível! Eu que pensei ser impossível falar de praças, sem grandes esforços fui recordando de todas elas. Quanto à Praça da Sé, também na capital de São Paulo, onde fica a Catedral Metropolitana, é quase impossível não a mencionar. Quantas vezes busquei a paz no silêncio das suas naves. Antigamente era um dos pontos turísticos mais visitados pelas famílias paulistanas. Hoje, não mais.

Praça Padre Bento, Largo do Pari. Entre todas já mencionadas, essa foi a mais marcante. Nela apreciava, principalmente, a Paróquia de Santo Antônio do Pari. Chegava pontualmente, às seis horas. Até os passarinhos ainda estavam em seus ninhos, mas a igreja, com as suas portas abertas, me acolhia. Assistia à missa, em uma de suas naves e, depois, ia trabalhar. E foi no seu altar-mor que disse o SIM ao meu grande amor.

Vou ficando por aqui. Adorei voltar no tempo e passear pelas praças que me completam.

Aqui onde moro existem muitas. Curiosidades à parte, houve uma prefeita que construiu tantas, que ficou conhecida como a “Prefeita das Praças”. Outra: os bustos das praças nem sempre são das personalidades que as nomeiam.

Verdade é que, com os mesmos objetivos de antigamente, as praças continuam a serem construídas; no entanto, a falta de segurança rouba a convivência idealizada.

Hoje passamos tão rapidamente por suas calçadas, que raramente observamos seu conteúdo; mas, com certeza, alguém ainda se encanta com suas belezas.

Vanda Jacinto
Enviado por Vanda Jacinto em 30/01/2025


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr