Todos os dias a rotina era a mesma para aquela menina franzina, mas muito ativa e vaidosa.
Assim que o sol começava a se preparar para o recolhimento – ainda mostrando nesgas de luz entre o azul celeste –, ela já se punha em alerta. Sabia que estava na hora do seu ritual.
Corria para a sua mãe, lembrando-a da hora sagrada da arrumação dela e dos irmãos menores. Na ordem crescente, cada um tinha a sua vez resguardada para o asseio no final do dia. O seu parecia o mais especial. Após o banho de água morna, na bacia de alumínio, com sabonete “Vale Quanto Pesa” – o seu favorito –, a mãe sempre lhe vestia com uma roupinha limpa qualquer, mas, para ela, sempre era algo majestoso. Na sequência, cuidadosamente, fazia-lhes cachos nos cabelos, depois de passar o “Óleo Gessy” nas madeixas – a fim de desembaraçá-los. Por sinal, os cabelos compridos eram em razão de uma promessa – ainda não cumprida –, feita pela mãe, e como eram muito encaracolados, dava um trabalhão para penteá-los... Era preciso habilidade, estratégia e paciência: a mãe prendia a menina entre as pernas, para melhor lhe pentear, mas ela, inquieta, ficava perguntando se ainda ia demorar. O seu tempo sempre foi cronometrado... desde pequena.
Assim que ficava pronta, linda e cheirosa, corria em busca de um lugar limpinho, onde pudesse sentar-se sem sujar o vestido, enquanto aguardava pela chegada do pai.
Ficava ali sentadinha, olhando para as pessoas que passavam na rua, de volta do trabalho.
Sentia-se muito feliz quando recebia elogios dos transeuntes, geralmente vizinhos que, sabedores da sua vaidade infantil, faziam questão de lhes dizer algo prazeroso!
Aos poucos ia ganhando a companhia dos irmãos, que, também banhados, vinham se juntar a ela.
O seu olhar, na verdade, voltava-se, constantemente, para o lado direito da rua, de onde o seu pai surgiria a qualquer momento.
O sol já havia se escondido, e nada do pai chegar… Os irmãos se entretinham com alguma brincadeira, mas ela preferia ficar sentadinha, para não suar. Aliás, a única brincadeira que ela aceitava era disputar com os irmãos, quem primeiro receberia, além dos carinhos do pai – que não passava de um desarrumar de cabelos –, a sua bolsa, onde em meio a marmita e seus pertences, vinha sempre o lanche que ganhava na firma onde trabalhava, e que ele não o comia com a intenção, clara, de trazer para casa e, com isso, repartir entre os seus filhos, no final da tarde.
Mas hoje, em especial, ela nem estava preocupada com o lanche, mas, sim, em fazer uma surpresa para o pai.
Estava com um vestido novo; e, enquanto esperava, não cansava de olhar e passar as mãos, alisando os babadinhos que compunham a saia.
Curiosa que era, observou que cada um deles era diferente, assim como o corpo do vestido e as mangas... Na sua ingenuidade, apenas gostava e admirava o colorido que via. Parecia mais um vestido de festa junina.
Não passava jamais, pela sua cabecinha, que sua mãe havia juntado vários retalhos, ganhados da oficina para a qual trabalhava, e costurado com o amor e zelo, de um jeito que só ela sabia fazer!
De repente, o pai apontou na esquina e tão absorta que estava, que foi a última a correr ao seu encontro. Quase chorando se aproximou do grupo meio que desconfiada... O pai percebendo a situação, fez-lhe um elogio, dizendo sentir um “cheirinho de roupa nova” – isso foi o suficiente para que o sorriso voltasse em seu rostinho.
Feliz da vida, nem se interessou pelo lanche, saiu pinoteando na frente dos irmãos, ansiosa pelo jantar, cujo cheiro já estava no ar.