Textos


Peixes escalados

 

Embora o dia tivesse amanhecido nublado, desde a noite anterior a decisão de se ir à praia já estava acordada. Assim sendo, após os últimos preparativos, rumamos para o destino.

Próximo a uma lagoa de captação, ainda na cidade, avistei algo que sempre chamou a minha atenção: varais de peixes escalados.

Hoje eu faço uma foto – foi a minha decisão. E a mais acertada!

Um pouco contrariado, meu esposo encostou o carro. Feliz da vida, registrei a beleza que os meus olhos viam. Pense como sempre desejei fazer isso!

Acaso sabes o que é um peixe escalado? Não? Então vou explicar: o peixe escalado é aberto da cabeça ao rabo e, após ser eviscerado, é salgado para uma desidratação mais rápida; e colocado, um a um, em varais. O interessante é a arrumação de quem os coloca. Abertos e dobrados ao meio no fio, ficando os rabinhos, como tesouras abertas, todos numa mesma posição. Lindo de se ver!

Não contente, comecei a questionar meu marido sobre esse hábito tão antigo e ainda hoje praticado por aqui.

Segundo as lembranças dele, sua mãe não conservava o peixe assim. Ela preferia temperar, passar na farinha de mandioca, dar uma leve assada e usar posteriormente em suas receitas, preservando assim a umidade da carne. Isso porque não tinham geladeira. Na época, a energia elétrica só chegava na “boca da noite” e muito cedo se ia. Geladeiras só a querosene, e pouquíssimas pessoas as tinham.

Essa conversa me fez lembrar de uma situação vivida há tempos. Assim que eu me casei, conheci uma garota, cuja amizade se estendeu por um longo tempo. Ela passava na época por uma situação difícil e, para ajudar no orçamento familiar, vendia bolinhos de bacalhau no comércio, nas empresas. Enfim, era o seu ganha pão. Já próximo à Semana Santa, comentávamos sobre o preço exorbitante do bacalhau. Conversa vai, conversa vem, descobri que ela, na verdade, não usava o bacalhau em seus bolinhos, mas comprava qualquer peixe salgado no mercado, dessalgava-os e preparava os quitutes. Assegurando-me que ninguém nunca reclamou dos seus salgados, ao contrário, elogiava-os.

Voltando ao assunto, penso que, se esses peixinhos se desidratarem muito, devem, sim, ficar com o sabor do bacalhau. Afinal o bacalhau, além de ser um tipo de peixe, é também um termo usado para se referir aos peixes que passam por processos de salga. Mas a lei diz que os fabricantes devem informar o tipo de peixe que está ali na embalagem.

Incrível pensar que uma prática de conservação de alimento possa perdurar por tanto tempo, mesmo com a praticidade das geladeiras e freezers. Tais situações me fazem perceber que o antigo e o novo podem conviver perfeitamente bem. Devemos ser gratos por poder ver essas tradições, esses processos in loco, enquanto nossos descendentes só poderão saber pelas imagens em livros e internet.

Essa volta ao passado foi maravilhosa. Descobri também que o meu esposo, quando molecote, nas horas vagas de ambos – pai e filho –, ajudava a fazer “COVI” ou “COVO”: armadilha para pegar peixes no mar. Morando na cidade de Areia Branca, no litoral, a pesca era uma atividade comum entre eles. Portanto, fome jamais passaram, uma vez que sempre tinha um bom peixinho.

O pai trabalhava no almoxarifado da Mossoró Comercial, empresa voltada para as atividades marítimas – transporte de gesso e sal –, tendo, em seus estoques para uso próprio, lonas, cordas, querosene, breu, cordões, cera de abelha, tintas etc. Futuramente mudou de função, passando a liberador de barcos. Uma observação: só os rebocadores tinham motores, os barcos eram à vela.

Uma curiosidade: as jangadas de antigamente eram feitas de toras de madeira, diferente das de hoje. As velas eram de lonas. Hoje, o material sintético ganhou lugar.

Tempo difícil o de antigamente, mas muito bom!

Aproveitando as saudades, demos um passeio na cidade, relembrando o que tinha e não mais existe, cedendo lugar para novas construções, os cinemas, escolas, cada casa onde morou ou ruas onde brincou. Foi um passeio gostoso! Em virtude da hora, resolvemos voltar.

Só então fomos para Upanema. A praia estava seca, a maré vazante. Tive que andar muito até as primeiras ondas. Mas só o fato de caminhar brincando nas lagoinhas, e o vento refrescando até a alma, foi mais que gratificante!

Para completar o “combo”, só mesmo uma água de coco e um peixinho frito – não o escalado – fresco.

Que delícia!

Vanda Jacinto
Enviado por Vanda Jacinto em 22/03/2025


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Imagem de cabeçalho: raneko/flickr