Diante das últimas notícias sobre tempestades e alagamentos na Região Sudeste, mais precisamente em São Paulo, minha terra natal, vieram-me lembranças comparativas em relação ao meu habitat hoje.
Há quarenta e quatro anos, já a caminho dos quarenta e cinco, cheguei por aqui, em chão potiguar. A princípio, fincamos moradia em Natal – cidade pequena, mas aconchegante. Nossa casa ficava no Conjunto Habitacional de Ponta Negra. Litoral, clima ameno, chuvas frequentes. Nada a contestar. O lado bom de tudo e de todos me extasiava. Não conseguia ligar a realidade nordestina às descrições memorizadas ao longo do tempo, obtidas por curiosos desinformados. Três anos se passaram, e as novidades acontecendo de forma galopante: o nascimento da minha filha caçula e a transferência do meu esposo para Mossoró, ocasionando a nossa mudança. Saímos do “bumbum” do elefante e fomos para o olho dele. Você já reparou que o formato do mapa geográfico do RN lembra um elefante? Repare!
Agosto de 1983, nova guinada na minha vida, novas adaptações pela frente. Cidade menor ainda, dificuldades para encontrar certos alimentos, como frutas, verduras e legumes. O clima quente, seco e poeirento angustiava-me. Tudo era muito complicado, mas nada que eu não desse um jeitinho.
Observando hoje, elenquei várias mudanças temporais ocorridas em minha vida e percebi que só me fortaleceram! A primeira delas foi o próprio casamento. Saí da casa dos meus pais – onde cada refeição era uma festa, já que éramos dez irmãos – para viver uma vida a dois; embora por pouco tempo, pois logo engravidei do meu primogênito. Nessa época, compramos o nosso primeiro carro: um TL da Volkswagen, azul claro.
Abro, aqui, parêntesis para explicações: em 1977, eu viera conhecer o Nordeste e adorei! Por mim, teríamos ficado por aqui desde aquele momento. Contudo o bom senso pediu mais um tempo. Em 1978, nasceu o meu segundo filho. Dois anos depois, em 1980, a nossa mudança para Natal-RN aconteceu. À época, compramos um carro Opala, usado, o trabalho do meu esposo exigia. Pouco depois, adquirimos nossa primeira casa – que sensação maravilhosa! Foi lá também, em Natal, o nascimento da minha filha caçula, e outra grande novidade: voltei aos estudos. Como se não bastassem todas essas mudanças, recebi a notícia da transferência do meu esposo para Mossoró, onde, definitivamente, nos instalamos.
Voltei ao estudo regular, conseguindo minha formação tão almejada. O meu esposo também se graduou e, num tempo curto, construiu o seu próprio negócio. Consegui, através de concursos públicos, colocações no Estado e no município. Os filhos crescendo e recebendo uma educação esmerada. Compramos outra casa maior, fomos trocando de carros até poder comprar um zero. Os filhos já graduados e encaminhados na vida, também concursados, cada um construindo seu núcleo familiar. Seguem a sua estrada.
E eu? Cá estou relembrando cada passo dado em busca dos meus ideais nessa “Abensonhada” terra – como diz Mia Couto, escritor moçambicano.
Nesse meu novo chão, tudo me foi permitido: tive uma filha, plantei árvores e escrevi livros. Ah, tenho uma netinha adorável também!
E o que tudo isso tem a ver com as intempéries de que falei no início? – vocês devem estar se perguntando. É a comparação. Não, não estou dizendo que minha vida foi cheia de temporais, tempestades, raios e trovões, nem me afoguei em lágrimas. É climática mesmo. Em contraponto ao Sudeste, aqui as tempestades e alagamentos são menos frequentes e não tão repentinos, aos poucos dando o sinal. Dá tempo de tirar do chão os objetos. E, ainda assim, as águas das chuvas são benfazejas e sinal de fartura, principalmente no interior, onde estão as plantações. Por falar em chuva, chove nesse momento aqui no oeste potiguar, meu novo chão.
Bora tomar banho de chuva? Os telhados já estão limpos!